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Cristiane Segatto

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Histórico

Dengue no Brasil: 11 milhões de casos em 16 anos. O que vi e ouvi nas ruas

Cristiane Segatto

02/10/2019 04h00

Funcionários da prefeitura durante nebulização contra o mosquito da dengue na zona norte de São Paulo | Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

Saiu em setembro um novo relatório da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde. O interessante desse boletim epidemiológico (com dados de 2003 a 2019) é tornar explícito o tamanho dos danos provocados por novas e antigas mazelas brasileiras. Entre elas, algumas das piores epidemias recentes. É o tipo de material que os jornalistas de saúde adoram ler, na tentativa de se atualizar e de produzir alguma informação útil.

Naveguei pelas 156 páginas sem muita surpresa, mas encasquetei com um número: o tal dos 11 milhões. Li, reli e contei as casas da cifra gigante. Ela está lá, na página 12 do relatório, para quem quiser conferir. "No período de 2003 a maio de 2019, foram notificados 11.137.664 casos prováveis de dengue no Brasil".

É, minha gente, 11 milhões de casos notificados. Será que só eu fico assombrada com a contundência desse número? A cidade de São Paulo, a mais populosa do país, tem cerca de 12 milhões de habitantes. Imagine o que seria uma São Paulo inteira se ver derrubada por mosquitinhas (quem pica é a fêmea do Aedes aegypti) de 5 milímetros.

A eterna pasmaceira

Foi o que aconteceu, com vítimas dispersas pelo país, ao longo dos últimos 16 anos. Um rastro de dores terríveis, impossibilidade de trabalhar, complicações graves nos casos de febre hemorrágica, milhares de mortes.

As piores epidemias ocorreram em 2008, 2010, 2013, 2015 e 2016. Além de sofrer com a dengue, em 2015 o Brasil assistiu ao aparecimento do vírus chikungunya (que pode provocar lesões permanentes). Em 2016, além da dengue, o mosquito passou a transmitir o vírus zika. E, por causa dele, vimos a tragédia das crianças nascidas com microcefalia.

Todo ano é assim. O Brasil "assiste ao surgimento do vírus", o Brasil "vê a tragédia dos doentes" etc. Vivemos em uma eterna pasmaceira, como se fôssemos espectadores da desgraça alheia. O mosquito ronda as nossas crianças, as larvas infestam os nossos vasinhos e agimos como se o problema fosse dos outros.

Tá tudo dominado

Hello, vamos acordar? São 11 milhões de casos prováveis em 16 anos. O mapa reproduzido nesta página mostra que, para o mosquito, tá tudo dominado. Há dengue no país todo, com maior incidência (ao longos dos últimos 16 anos) nos municípios das regiões Centro-Oeste e Sudeste.

Entre 2003 e 2019, houve 3 óbitos por dengue a cada 100 mil habitantes no Brasil. Estados como Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará e Espírito Santo apresentaram médias do coeficiente de mortalidade até três vezes maior que o nacional.

Em 2019, não há razão para relaxar. De janeiro até 24 de agosto, foram registrados 1.439.471 de casos no país. Houve um crescimento de 599,5% em relação ao mesmo período de 2018 (205.791 casos). E já foram confirmadas 591 mortes.

Segundo o Ministério da Saúde, esse aumento pode ser explicado por uma associação de fatores: condições ambientais fora do comum (alto volume de chuvas e altas temperaturas), grande quantidade de pessoas suscetíveis, mudança no sorotipo predominante etc.

É sempre possível botar a culpa na natureza, mas a coisa mais constante feita no combate à dengue no Brasil foi a inconstância. Historicamente é assim. Corte de verbas, campanhas de conscientização que começam no verão e não alcançam o outono, indicações políticas para cargos que deveriam ser ocupados por técnicos…O resultado é esse numerão para estrangeiro nenhum botar defeito: 11 milhões. Parabéns, Brasil!

 O que vi e ouvi nas ruas

Digo "Brasil" porque reclamar do governo (qualquer que seja ele) e cruzar os braços é o pior dos escapismos. É preciso reclamar quando o Estado não cumpre seu papel, mas a colonização brasileira pelo Aedes aegypti não seria tamanho "case de sucesso" se ele não tivesse contado com a nossa irresponsabilidade.

Nos últimos anos, tive algumas oportunidades de acompanhar o trabalho dos agentes de saúde que percorrem as ruas para fazer o chamado bloqueio. Quando um caso de dengue é notificado às autoridades, a equipe de vigilância percorre a vizinhança do doente, com o objetivo de procurar larvas e orientar a população sobre o combate ao mosquito.

É triste ver tantos servidores públicos esforçados (que pegam sol, ouvem xingamentos e são ameaçados por cachorros) atuando na linha de frente de uma guerra que me parece perdida.

Enquanto os moradores não pararem de inventar desculpas esfarrapadas para os agentes e para si próprios, os 11 milhões de casos vão progredir para os 50 milhões. Em São Paulo, 85% dos criadouros de mosquitos estão dentro das casas.

Para destruí-los é preciso vencer o comodismo e a desfaçatez das pessoas que dizem que "a água acumulada é da chuva de ontem", como ouvi tantas vezes, ou a mania dos acumuladores, gente que se apega a todo tipo de inutilidade.

Andar pelos quintais paulistanos é tomar contato com pilhas de objetos inúteis, tranqueiras abandonadas e lixo de todo tipo. Um cenário que produz infinitos ângulos para acumulação de água e depósito de larvas. Um desleixo que não pode ser atribuído à pobreza e, sim, à inconsequência sem qualquer relação com o volume da conta bancária.

Podemos fazer melhor que isso?

Acredito (e espero) que sim. Neste ano, o Ministério da Saúde antecipou em dois meses a campanha de combate à dengue. Em vez de esperar até novembro, a pasta decidiu convocar a sociedade para se engajar no combate ao mosquito antes do período chuvoso. Não custa lembra algumas medidas básicas de prevenção, recomendadas pelo Ministério da Saúde:

  • Manter bem tampado tonéis, caixas e barris de água;
  • Lavar semanalmente com água e sabão tanques utilizados para armazenar água;
  • Manter caixas d'agua bem fechadas;
  • Remover galhos e folhas de calhas;
  • Não deixar água acumulada sobre a laje;
  • Encher pratinhos de vasos com areia até a borda ou lavá-los uma vez por semana;
  • Trocar água dos vasos e plantas aquáticas uma vez por semana;
  • Colocar lixos em sacos plásticos em lixeiras fechadas;
  • Fechar bem os sacos de lixo e não deixar ao alcance de animais;
  • Manter garrafas de vidro e latinhas de boca para baixo;
  • Acondicionar pneus em locais cobertos;
  • Fazer sempre manutenção de piscinas;
  • Tampar ralos;
  • Colocar areia nos cacos de vidro de muros ou cimento;
  • Não deixar água acumulada em folhas secas e tampinhas de garrafas;
  • Vasos sanitários externos devem ser tampados e verificados semanalmente;
  • Limpar sempre a bandeja do ar condicionado;
  • Lonas para cobrir materiais de construção devem estar sempre bem esticadas para não acumular água;
  • Catar sacos plásticos e lixo do quintal.

Se você já faz isso tudo, ajude a conscientizar quem não faz.

Sobre a autora

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem “O paciente de R$ 800 mil” e, em 2014, com o trabalho investigativo “O lado oculto das contas de hospital”, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Sobre o blog

Desde que o mundo é mundo, temos a necessidade de ouvir, contar e compartilhar histórias. A missão deste blog é garimpar pequenas pérolas, histórias miúdas (mas nunca banais) no rico universo da saúde. Grandes dilemas cotidianos, casos surpreendentes de cooperação, aceitação (ou superação) de limites, exemplos de solidariedade, pequenos oásis de sanidade em meio ao caos. Este espaço abrigará as boas notícias, que comovem ou inspiram, mas não só elas. Teremos olhos e ouvidos para capturar e analisar as coisas que não vão bem. Tentaremos, sempre, transformar confusão em clareza. Nada disso faz sentido sem você, leitor. Alguma sugestão de história ou abordagem? Envie pela caixa de comentários ou por email (segatto.jornalismo@gmail.com) e dê vida a esse blog.

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