Topo
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto

Histórico

"Cigarro eletrônico é propaganda enganosa que ameaça os adolescentes"

Cristiane Segatto

18/09/2019 04h00

Crédito: iStock

No momento em que a indústria do tabaco tenta reverter a proibição da venda de cigarro eletrônico no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) precisa agir com a máxima cautela. Principalmente depois do surgimento de centenas de casos de doenças pulmonares graves em jovens nos Estados Unidos (com seis mortes até o fechamento deste texto), relacionadas ao uso de vaporizadores com sabor.

"Cigarro eletrônico é propaganda enganosa que já ameaça os adolescentes no Brasil", diz o médico João Paulo Lotufo, especialista em pneumologia pediátrica. Médico assistente do Hospital Universitário da USP e representante da Sociedade Brasileira de Pediatria para assuntos de álcool e drogas, Lotufo criou o personagem Dr. Barthô para disseminar informação sobre os riscos do cigarro eletrônico e outras drogas. Percorre escolas e empresas em um incansável trabalho de formiguinha. Nesta semana, Lotufo deu a seguinte entrevista ao blog:

VivaBem: Como o cigarro eletrônico evoluiu nos últimos anos?

João Paulo Lotufo: O cigarro eletrônico já está na quarta geração. O primeiro era uma canetinha com uma ampola de nicotina líquida, um chip e uma pilha. Ele foi lançado mais ou menos na mesma época em que se proibiu o fumo em ambientes fechados. Ele seria uma alternativa para quem quisesse fumar nos locais onde o cigarro normal era proibido. Depois foram aperfeiçoando até chegar aos vaporizadores (ou vapers). Essa é uma tática interessante da indústria do tabaco. Hoje ela diz que a pessoa não fuma, ela vaporiza. Há um aquecedor do líquido que está lá dentro. Esse líquido tem nicotina, vários sabores e outras substâncias também, como o glicerol.

VivaBem: Em que momento surge essa ideia de vaporizar?

Lotufo: Isso aparece quando há uma redução do consumo de tabaco, principalmente no Ocidente. Foi quando a indústria decidiu lançar esses produtos com o discurso de que eles causariam menos mal do que o cigarro comum. Esse argumento não se sustenta. Basta ver o que está acontecendo nos Estados Unidos, onde houve uma epidemia de uso de vapers, principalmente do Juul. O produto tem uma alta concentração de nicotina. Com isso, ele vicia mais. O que vicia é a nicotina. Isso foi lançado como sendo uma redução de danos para os indivíduos que fumam e não conseguem parar de fumar. É propaganda enganosa.Segundo alguns estudos, os jovens que usam o cigarro eletrônico passam a fumar o cigarro convencional em poucos meses. E também cigarro de maconha. Nesses vapers, a pessoa pode colocar um monte de coisas. Há os aditivos, que podemos chamar de perfumarias.

VivaBem: Por que o sr. acredita que o cigarro eletrônico não pode ser considerado como um instrumento de redução de danos?

Lotufo: Se fosse redução de danos, por que a indústria estaria lançando isso com uma forte propaganda para o jovem? A indústria do tabaco nunca foi boazinha. Ela omitiu os malefícios que o cigarro causava desde a década de 50. Quem trabalha, como eu, em ambulatórios para pessoas que querem parar de fumar, não adota o cigarro eletrônico. Ele mantém inclusive a dependência comportamental, que é todo o gestual que a pessoa faz para fumar. Esses vaporizadores foram lançados maciçamente para os jovens. Resultado: uma epidemia de uso nos EUA e, agora, problemas respiratórios gravíssimos, com pouco tempo de uso. Não sabemos o que isso vai causar a médio e longo prazo.

VivaBem: Nos casos registrados nos EUA, ainda não ficou claro se o problema foi causado pelo cigarro eletrônico ou pelos aditivos que os jovens colocam nos vaporizadores, certo?

Lotufo: Essa é uma pergunta ainda sem resposta. O fato é que os mais de 400 jovens internados estavam usando esse tipo de material. A primeira coisa que está sendo feita nos Estados Unidos é suspender a venda de cigarros eletrônicos com aditivos (com essência, com gosto) porque isso é um forte atrativo para os jovens. Isso foi proibido em vários lugares. O estado de Nova York já proibiu e outros estados também. Estão muito preocupados porque os casos de pneumonia são gravíssimos. O indivíduo vai para entubação. A quantidade de nicotina contida no Jull, por exemplo, é altíssima. Muito maior do que a existente em um maço de cigarro. Quem usa cigarro eletrônico fica dependente. É uma dependência com uma agressividade jamais vista.

VivaBem: Como a indústria do tabaco tem se posicionado em relação a isso no Brasil?

Lotufo: A indústria quer reverter a proibição da venda de cigarro eletrônico no Brasil. Como representante da Sociedade Brasileira de Pediatria, participei de duas audiências públicas da Anvisa para discutir isso. A indústria vem com essa história de redução de danos para o adulto que fuma e não consegue parar de fumar. Pode até ser que algum adulto pare de fumar com isso e fique vaporizando. Só que o malefício que isso vai causar na nossa juventude, como está causando nos Estados Unidos, é enorme.

O médico João Paulo Lotufo em uma de suas palestras: "A gente nunca sabe qual abordagem vai funcionar com o adolescente. É preciso entender o momento dele", diz. (Foto: Arquivo pessoal/ UOL VivaBem)

VivaBem: O cigarro eletrônico é uma onda que já pegou entre os adolescentes brasileiros?

Lotufo: Noto que o uso já é bastante frequente. Não sei dizer qual parcela dos adolescentes consome cigarro eletrônico no Brasil, mas isso é uma coisa que pega. O marketing da indústria é voltado para isso. Não há anúncio na televisão, mas há formas de alcançar os jovens pela internet e de disseminar fake news. Há grupos de pessoas dizendo que pararam de fumar com isso. Na prática terapêutica, não é o que acontece.

VivaBem: Qual é a postura que o sr. espera da Anvisa?

Lotufo: Não podemos deixar que a Anvisa facilite a entrada desse produto no país. Esperamos que ela mantenha a proibição no Brasil. Há países que estão usando esse produto como redução de danos, mas nós precisamos saber o que acontece nesses outros lugares. Provavelmente vai acontecer a mesma coisa que está acontecendo nos EUA. Não vamos deixar entrar um produto maléfico no Brasil para depois termos de correr atrás dos prejuízos. Estamos vencendo a luta contra o tabaco. O Brasil é o segundo país que fez toda a lição de casa para diminuir o consumo de tabaco. Em primeiro lugar foi a Turquia. Em segundo, foi o Brasil. Estando indo bem nessa luta. Essa é a razão da indústria querer reverter a proibição da Anvisa. A indústria inventou essa "nova maneira de fumar" porque 35% da população brasileira fumava e atualmente esse índice é de 9,3%. Estamos falando de uma nova droga, com alta concentração de nicotina, que chegou ao mercado brasileiro, mesmo sem ser aprovada.Precisamos ser espertos e não cair nessa.

VivaBem: O sr. consegue convencer um adolescente a ficar longe do cigarro eletrônico e de outras drogas? Qual é o segredo?

Lotufo: Faço uma tentativa de dissuadi-lo do uso da droga, qualquer que seja ela. Tabaco, maconha, álcool etc. Dissuadir significa mostrar os riscos de onde ele está entrando. Não é possível que eu tenha em um consultório pediátrico particular seis casos de coma alcoólico aos 15 anos em um ano. Não é possível que eu tenha seis casos de surto psicótico em adolescente por maconha. Atender uma família que tem um filho esquizofrênico por causa da maconha é terrível. O pediatra não está acostumado a lidar com isso. Cada vez mais, o uso de drogas é um tema do universo da pediatria.

VivaBem: O que mudou nos últimos anos?

Lotufo: No ano 2000, a família dizia que estava contente porque o filho usava só cigarro, não droga. Depois eles começaram a dizer que estavam contentes porque o filho não estava usando droga, só maconha. Hoje ouvimos que estão contentes porque o filho está usando só cigarro eletrônico. Isso é uma ignorância dos pais.

VivaBem: Como mudar esse cenário?

Lotufo: Temos um programa de aconselhamento breve para a população no site do Dr. Bartô, o personagem que uso para discutir as drogas nas escolas. Cada semana tem um videozinho de orientação de alguma coisa sobre drogas. E também um belo vídeo gravado pela Stella Martins, a maior especialista em cigarro eletrônico e narguilé no Brasil. Encaminhamos esses vídeos toda semana para os 24 mil pediatras do Brasil. Temos que aumentar o conhecimento da população, dos professores e dos médicos sobre o risco das drogas. Não adianta ir à escola uma vez por ano para falar com jovem. O efeito disso é zero. Temos que oferecer esse material de aconselhamento breve para os professores executarem o trabalho ao longo do ano todo. Temos no site um programa de 64 aulas de prevenção ao uso do álcool e tabaco para o ensino fundamental II. Pena que nenhuma Secretaria de Educação olhou isso com carinho, mas temos várias escolas adotando o material.

VivaBem: Esse tipo de aconselhamento é capaz de mudar o comportamento dos adolescentes?

Lotufo: A gente nunca sabe o que vai funcionar. Se é o videozinho cômico, se é uma conversa mais séria, se é contar casos. Tento trabalhar o assunto de várias formas. Se estou em um grupo antitabágico, levo todo mundo na UTI para ver um paciente entubado, todo lesado. Para alguns, isso tem um efeito. Para outros, eles vão fumar mais só de nervoso por ter visto aquela cena. Outro dia um adolescente me disse que fumava para disfarçar o bafo antes de beijar as meninas. É preciso entender o momento do adolescente e fazer acordos. A questão da droga está, cada vez mais, no universo da pediatria. Tivemos uma criança com convulsões aos 15 dias de vida. Ela acabou falecendo dois ou três meses depois. A causa foi alta concentração de cocaína na urina de uma criança de 15 dias. A mãe era usuária e amamentou essa criança. A droga está no dia a dia da gente. Se você passar um final de semana no pronto-socorro de qualquer hospital particular, vai ver a quantidade de adolescentes tomando glicose. Não estou falando de vomitar no banheiro. Estou falando de coma alcoólico. A situação é muito grave e temos que trabalhar para modificá-la.

Sobre a autora

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem “O paciente de R$ 800 mil” e, em 2014, com o trabalho investigativo “O lado oculto das contas de hospital”, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Sobre o blog

Desde que o mundo é mundo, temos a necessidade de ouvir, contar e compartilhar histórias. A missão deste blog é garimpar pequenas pérolas, histórias miúdas (mas nunca banais) no rico universo da saúde. Grandes dilemas cotidianos, casos surpreendentes de cooperação, aceitação (ou superação) de limites, exemplos de solidariedade, pequenos oásis de sanidade em meio ao caos. Este espaço abrigará as boas notícias, que comovem ou inspiram, mas não só elas. Teremos olhos e ouvidos para capturar e analisar as coisas que não vão bem. Tentaremos, sempre, transformar confusão em clareza. Nada disso faz sentido sem você, leitor. Alguma sugestão de história ou abordagem? Envie pela caixa de comentários ou por email (segatto.jornalismo@gmail.com) e dê vida a esse blog.

Mais Cristiane Segatto