Topo
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto

Histórico

Você precisa descobrir a importância da transparência na saúde

Cristiane Segatto

17/07/2019 04h00

Crédito: iStock

Pagamos a conta da saúde pública e privada, mas estamos longe de ter acesso a informações detalhadas sobre a qualidade e o desempenho dos hospitais e de outros serviços. É lamentável que, em 2019, ainda não possamos comparar instituições e premiar as melhores com a nossa escolha.

Ainda assim, há iniciativas nessa direção. Uma delas é o projeto UTIs brasileiras, uma parceria da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) e da empresa Epimed Solutions. Dados de desempenho de metade dos leitos de UTI adulto do país são coletados e divulgados em um site (www.utisbrasileiras.com.br).

As unidades participantes têm acesso gratuito a um conjunto de dados para que possam se comparar a outras. O nome das instituições ainda não é revelado, mas o trabalho permite traçar um retrato das UTI's públicas e privadas do país. Em entrevista ao blog, o médico Ederlon Rezende, coordenador do projeto da AMIB, diz que a sociedade precisa descobrir a importância da transparência na saúde e começar a exigi-la. "Se a UTI esconde seus dados, é porque há algo errado", diz.

VivaBem: O que difere a medicina intensiva das outras especialidades?

Ederlon Rezende: A medicina intensiva não tem uma bala mágica. Não existe um medicamento ou um procedimento que mude o desfecho dos pacientes. Na cardiologia, a possibilidade de dissolver um coágulo que entope a veia do coração mudou o rumo da especialidade. Na neurocirurgia, poder fazer procedimentos endovasculares (sem a necessidade de abrir o cérebro) transformou a especialidade. Na reumatologia, os medicamentos imunobiológicos mudaram a vida de muitos pacientes. Na oncologia, houve um enorme avanço na escolha da quimioterapia, a partir da avaliação do perfil genético do paciente. Na medicina intensiva, os resultados dependem basicamente de organização e de trabalho em equipe.

VivaBem: Como é possível melhorar uma UTI?

Rezende: O fundamental é ter informação. Temos hoje dados de cerca de 14 mil leitos de UTI adulto. Isso representa cerca de 50% do total de leitos de UTI adulto do país. Algo muito representativo do total. A Holanda tem um registro como esse há mais de 20 anos. Lá há dados de todas as unidades. Só que a Holanda inteira tem 85 UTI's. No Brasil, metade das unidades são mais de 800. O nosso é o maior banco de dados epidemiológico de UTI's do mundo.

VivaBem: Esses dados representam a realidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede privada?

Rezende: O Brasil tem cerca de 28 mil leitos de UTI adulto. Metade é do SUS e metade é da saúde suplementar. No nosso banco de dados, 2/3 são da saúde suplementar e 1/3 é do SUS. Temos esse viés. Não temos meio a meio, como gostaríamos de ter. Isso acontece porque os hospitais privados costumam ser mais organizados para coletar dados do que o sistema público.

VivaBem: É possível estimular as unidades do SUS a coletar dados?

Rezende: Recentemente, tivemos uma reunião com o ministro Luiz Henrique Mandetta e ressaltamos que é importante que haja uma motivação para que as UTI's do SUS se organizem melhor. A maneira como o SUS remunera as unidades não incentiva a eficiência. O SUS paga pelos dias em que o paciente passa dentro da UTI – e não por desfecho de saúde (os resultados obtidos com o tratamento). Se o Ministério da Saúde começasse a oferecer uma remuneração mais alta às UTI's preocupadas com qualidade, haveria uma mudança de cultura e uma melhoria significativa no atendimento. O ministro acenou de uma maneira positiva. Agora estamos trabalhando para estabelecer critérios capazes de indicar que uma UTI se preocupa com qualidade.

VivaBem: De que forma o paciente e os familiares podem participar dessa mudança de cultura e induzir novas práticas?

Rezende: Nada é mais importante para a sociedade em uma democracia do que a transparência. Ter os dados da minha UTI fazendo parte de uma rede e sendo publicados é importante do ponto de vista de cidadania. Ainda não chegamos a um cenário em que podemos identificar publicamente a UTI A, B ou C. Mas esse é um caminho sem volta. Na Inglaterra, por exemplo, onde o sistema público é forte, os resultados dos cirurgiões são divulgados. Você pode consultar o desempenho de cada profissional. Se a instituição tem a necessidade de esconder seus dados é porque há algo errado.

VivaBem: O que impede a AMIB de divulgar no site a informação completamente transparente a respeito do que foi coletado em cada instituição?

Rezende: Todas as unidades teriam de concordar em revelar seus dados publicamente. Para chegarmos a esse ponto, precisamos começar a criar a cultura da transparência. O primeiro passo já foi dado, mas a sociedade ainda não descobriu a importância disso.

VivaBem: Como é possível saber se uma UTI faz um bom trabalho?

Rezende: Há dois dados relevantes na demonstração da eficiência do sistema. Um deles é a taxa de mortalidade ajustada pela gravidade do paciente — ou TMP (taxa de mortalidade padronizada). Quando a taxa está acima de 1, significa que a mortalidade está acima do esperado para a gravidade do caso. Quando ela está abaixo de 1, significa que a mortalidade é inferior ao previsto. Comparamos um ano com outro para saber se a UTI está melhorando ou piorando.

VivaBem: O que mede o indicador TURP?

Rezende: TURP significa taxa de utilização de recursos padronizado. Enquanto o TMP avalia a eficiência no sentido de salvar vidas, a TURP revela a eficiência na utilização de recursos. Se o doente ficar mais tempo na UTI do que o esperado para a gravidade dele, certamente há um desperdício de recursos materiais e humanos. Se esse indicador estiver abaixo de 1, significa que a unidade utiliza menos recursos do que o previsto para a gravidade. Se ele ficar acima de 1, a instituição está usando mais recursos do que o previsto pela gravidade.

VivaBem: Com base nesses indicadores, qual é o retrato das UTI's brasileiras?

Rezende: Temos vários Brasis diferentes no mesmo país. A coisa é bem heterogênea. De uma maneira geral, as UTI's têm caminhado com uma alvissareira melhora nesses indicadores. Em 2013, essa mortalidade ajustada pela gravidade era de 1,19. Ou seja: morria-se 20% mais do que o previsto pela gravidade. Em 2018, esse número é 0,99. Os óbitos são compatíveis com a mortalidade prevista pela gravidade. É uma melhora importante, mas ela se refere ao conjunto das UTI's analisadas.

VivaBem: No SUS, a realidade é outra?

Rezende: A curva das UTI's privadas é de melhoria contínua. As do SUS vinham melhorando até 2017. Em 2018, pioraram.

VivaBem: Por quê?

Rezende: Vários fatores podem ter contribuído para essa queda no desempenho, mas nos últimos anos houve uma redução de investimento na saúde pública. Quando ocorre alguma coisa assim, as UTI's sentem. A TURP, que mede a utilização de recursos, piorou também.

VivaBem: Que tipo de atitude as famílias devem ter para contribuir para a melhoria?

Rezende: A conversa com a equipe é bem-vinda. Os familiares devem perguntar se naquela unidade (pública ou privada) há coleta de dados de desempenho. É importante, também, entender que UTI é um lugar para lutar pela vida e não um lugar para lutar contra a morte. As pessoas que têm uma condição terminal, uma doença incurável, não se beneficiam com a ida para a UTI. Precisamos utilizar esse recurso caro e importante para quem efetivamente vai ter benefício. Se não houver mudança de comportamento, o sistema não aguenta os custos.

VivaBem: Há uma mudança de postura dos hospitais a partir do momento em que eles recebem seus dados?

Rezende: Invariavelmente. Não há motor melhor para estimular a melhoria do que a informação. Poder olhar os dados da minha UTI e comparar com outras é motivador. A coleta de dados gera mudança. Se não houver comparação, ficamos todos achando que fazemos um bom trabalho. É possível produzir mudanças mesmo nos hospitais públicos, submetidos à contenção de recursos. Muitas das iniciativas de melhoria estão associadas a mudanças de comportamento, mais do que investimento. Para prevenir infecção dentro de uma UTI, a atitude mais importante é lavar as mãos. Isso não custa.

 

 

 

Sobre a autora

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem “O paciente de R$ 800 mil” e, em 2014, com o trabalho investigativo “O lado oculto das contas de hospital”, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Sobre o blog

Desde que o mundo é mundo, temos a necessidade de ouvir, contar e compartilhar histórias. A missão deste blog é garimpar pequenas pérolas, histórias miúdas (mas nunca banais) no rico universo da saúde. Grandes dilemas cotidianos, casos surpreendentes de cooperação, aceitação (ou superação) de limites, exemplos de solidariedade, pequenos oásis de sanidade em meio ao caos. Este espaço abrigará as boas notícias, que comovem ou inspiram, mas não só elas. Teremos olhos e ouvidos para capturar e analisar as coisas que não vão bem. Tentaremos, sempre, transformar confusão em clareza. Nada disso faz sentido sem você, leitor. Alguma sugestão de história ou abordagem? Envie pela caixa de comentários ou por email (segatto.jornalismo@gmail.com) e dê vida a esse blog.