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Cristiane Segatto

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Que tal um site para comparar o desempenho de hospitais? Na Colômbia já tem

Cristiane Segatto

26/06/2019 04h00

Crédito: iStock

É mais fácil escapar do labirinto do Minotauro sem novelo do que descobrir, com alguma segurança, se um hospital trabalha direito. Indicadores de qualidade e rankings de desempenho divulgados publicamente existem aos montes nas mais variadas atividades. É possível comparar restaurantes, hotéis, empresas de telefonia, escolas e muito mais, antes de tomar qualquer decisão de consumo.

Pagamos a conta da saúde pública e privada, mas no escuro. Nesse campo, tudo é um mistério. Mitologia grega sussurrada em linguagem cifrada apenas para iniciados. Assim se perpetuam lendas criadas ao sabor de práticas e códigos fossilizados.

Para conforto dos que resistem a mudanças, muitos dos sistemas de informação não se comunicam e, portanto, não geram dados comparáveis. Não sei até quando os clientes das empresas de saúde e os cidadãos que sustentam o Sistema Único de Saúde (SUS) seguirão tolerando falta de transparência em uma área em que ela pode ser a diferença entre a vida e a morte.

É preciso avançar –e muito. É possível avançar, como demonstra o lançamento de uma plataforma que permite a qualquer cidadão comparar a qualidade dos hospitais públicos da…Colômbia.

É, meu caro leitor, ainda não será desta vez que terei o prazer de anunciar uma iniciativa semelhante no Brasil, mas espero que a solução dos nossos vizinhos nos sirva de inspiração ou de discussão.

Sinal vermelho

Na semana passada, o Ministério da Saúde e Proteção Social da Colômbia apresentou um aplicativo web por meio do qual os cidadãos podem acompanhar a evolução dos resultados obtidos pelos hospitais públicos a cada trimestre.

A avaliação é baseada em 24 indicadores de saúde e de gestão. A ferramenta também apresenta dados de saúde pública referentes aos territórios em que os hospitais estão localizados. A plataforma faz parte do programa AI Hospital (Ação Integral em Hospitais). Segundo o governo federal, o objetivo é melhorar a transparência, o acesso e a qualidade dos serviços.

A visualização das informações é simples. A classificação dos hospitais é feita pelas cores do semáforo. Basta clicar sobre um mapa ou usar a ferramenta de busca para ver se a instituição está na faixa de melhor desempenho (verde), na intermediária (amarela) ou na pior (vermelho).

Um exemplo: quem buscar informações sobre o Hospital Universitario Del Caribe, em Cartagena, verá que ele recebeu nota baixa e um sinal vermelho. Para classificar as instituições, são utilizados indicadores como:

  •  tempo de espera para realização de consulta de clínica geral
  • tempo de espera para atendimento em serviços de urgência
  • proporção de partos por cesárea
  • taxa de mortalidade perinatal
  • equilíbrio operacional entre receitas e despesas etc

Transparência faz bem à saúde

Depois de experimentar a plataforma, fiquei pensando o quanto um serviço semelhante poderia ser útil aos brasileiros. Pode-se discutir a adequação dos critérios e a confiabilidade de quem se encarregar de fazer as avaliações, mas todo ganho de transparência no setor de saúde é altamente desejável.

No momento em que a Câmara começa a discutir propostas de reforma do SUS, creio que vale a pena refletir sobre o impacto que iniciativas de transparência poderiam ter na melhoria de gestão do sistema.

Segundo a mais recente análise do Banco Mundial, há um espaço significativo para tornar o gasto com saúde no Brasil mais eficiente, particularmente no nível hospitalar. De acordo com a instituição, "os serviços hospitalares e de diagnóstico estão distribuídos de forma desigual e muitas vezes são pequenos demais para operar com eficiência e garantir qualidade".

A conta vai explodir

A avaliação constante do desempenho das instituições é fundamental para melhorar a gestão dos recursos. Conforme ressalta o Banco Mundial, "mantidas as atuais tendências de aumento nominal do gasto público com saúde no Brasil, as despesas com o SUS atingirão R$ 700 bilhões em 2030".

A instituição ressalta que esse cálculo não leva em conta o envelhecimento da população, o aumento das doenças crônicas e a incorporação de novas tecnologias. Ou seja: a conta vai explodir.

Mais do que nunca, os cidadãos que financiam o SUS, o mais importante programa social do Brasil, precisam saber quem faz bom uso do dinheiro público e o transforma em saúde. Na medicina privada, a necessidade de transparência é igualmente urgente.

Em vez de pirotecnia, que tal um semáforo básico para começar?

 

Sobre a autora

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem “O paciente de R$ 800 mil” e, em 2014, com o trabalho investigativo “O lado oculto das contas de hospital”, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Sobre o blog

Desde que o mundo é mundo, temos a necessidade de ouvir, contar e compartilhar histórias. A missão deste blog é garimpar pequenas pérolas, histórias miúdas (mas nunca banais) no rico universo da saúde. Grandes dilemas cotidianos, casos surpreendentes de cooperação, aceitação (ou superação) de limites, exemplos de solidariedade, pequenos oásis de sanidade em meio ao caos. Este espaço abrigará as boas notícias, que comovem ou inspiram, mas não só elas. Teremos olhos e ouvidos para capturar e analisar as coisas que não vão bem. Tentaremos, sempre, transformar confusão em clareza. Nada disso faz sentido sem você, leitor. Alguma sugestão de história ou abordagem? Envie pela caixa de comentários ou por email (segatto.jornalismo@gmail.com) e dê vida a esse blog.

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