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Cristiane Segatto

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Histórico

É câncer ou não é? No centro cirúrgico, com o patologista que salva vidas

Cristiane Segatto

05/06/2019 04h00

O patologista Antonio Nascimento (de verde, à direita) conversa com o cirurgião Ronaldo Toledo durante uma operação no A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo (Foto: Cristiane Segatto/UOL VivaBem)

Histórias de sucesso no tratamento do câncer produzem festas em família e gratidão eterna pelo cirurgião e pelo oncologista clínico. Quando o paciente é famoso, os médicos se tornam celebridades instantâneas. Todo mundo quer saber quem foi o bam-bam-bam que salvou o presidente ou o bonitão da novela.

Em total anonimato, trabalhando duro nos bastidores, há uma figura essencial no combate ao câncer: o patologista. Nos melhores centros de pesquisa e tratamento da doença, como o A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, ele fica dentro do centro cirúrgico. Sem os olhos do patologista, não há cura possível.

No centro cirúrgico

Com mais de 40 anos de patologia, o médico Antonio Nascimento já viu de tudo. Trabalhou na Clínica Mayo, em Rochester, no Memorial Sloan Kettering, em Nova York e, desde 2011, salva vidas no A.C. Camargo. Não há cirurgião que se arrisque a abrir mão das análises feitas por ele e sua equipe durante a operação. Enquanto o paciente ainda está na sala, amostras do tecido extraído são encaminhadas para a sala da patologia. Basta cruzar o corredor.

Em poucos minutos, o cirurgião fica sabendo se está lidando com uma lesão benigna ou maligna. Ou se precisa ampliar a área removida para conseguir extirpar o tumor inteiro. É ali, no centro cirúrgico e a partir do diagnóstico preciso da patologia, que começa a ser traçada a melhor estratégia de tratamento para cada paciente.

"Não existe oncologia personalizada sem a patologia", diz Nascimento. "A nossa função é investigar e, às vezes, mudar o curso de um tratamento".

Nem todo hospital tem um departamento de patologia funcionando, em tempo integral, dentro do centro cirúrgico. A ausência do patologista pode custar caro ao paciente.

Patologistas trabalham, em tempo integral, dentro do centro cirúrgico do hospital. Vários olhos examinam a mesma lâmina (Foto: Cristiane Segatto/UOL VivaBem)

Cirurgia ou quimioterapia?

Não é incomum, por exemplo, que um médico dos mais experientes entre na sala de cirurgia achando que vai operar uma lesão na boca. Faz a biópsia inicial e pede um diagnóstico ao colega Nascimento. Se o patologista disser que se trata de um carcinoma epidermóide (um tumor  invasivo), é possível que a língua do paciente seja extraída. Se, por outro lado, a patologia informar que a lesão é um linfoma, a cirurgia é interrompida.

"Quem está operando para tudo nesse momento porque linfoma não é tratado com cirurgia e, sim, com quimioterapia", diz Nascimento. "Já pensou no desserviço que o médico faria ao paciente se retirasse aquela língua?". Um bom patologista salva vidas e preserva a qualidade dos dias que há para viver.

12 horas de cirurgia

Recentemente, em uma quarta-feira de maio, Nascimento estava às voltas com um caso complicado. Um homem de 63 anos teve um tumor de pele (um carcinoma basocelular) e sofreu uma metástase extensa na região cervical.

Três equipes cirúrgicas foram mobilizadas para remover o osso temporal, acessar a meninge e remover a maior quantidade possível de tecido maligno. Em seguida, uma cirurgiã plástica entraria em ação para reparar o enorme ferimento.

Um esforço conjunto que consumiria mais de 12 horas de trabalho. Ao longo da cirurgia, dezenas de amostras seriam avaliadas pela equipe de Nascimento.

"O patologista tem o papel mais importante de todo o centro cirúrgico", diz o otorrinolaringologista Ronaldo Nunes Toledo. "É ele quem avalia as bordas da cirurgia e me diz se conseguimos retirar o tumor inteiramente". Às vezes, Toledo pede que Nascimento analise 40 lâminas durante uma única cirurgia.

"O Ronaldo é o Indiana Jones da medicina", afirma Nascimento. "Ele está sempre à procura da última célula do câncer".

Ediel prepara uma lesão de laringe para o congelamento e a análise. Em dez minutos, o cirurgião que aguarda ao lado do paciente saberá se ela é um câncer ou não (Foto: Cristiane Segatto/UOL VivaBem)

Será que é câncer?

Quando uma auxiliar sai de outra sala de cirurgia e anuncia que tem uma peça para congelação, a equipe da patologia se agita. O residente Ediel Valério da Silva Filho, 29 anos, prepara o material que será analisado. Ele mede e reconhece uma pequena lesão em forma de esfera, retirada da laringe de um paciente de 73 anos. Mais um caso que precisa de uma resposta rápida.

O passo seguinte é entregar aquela bolinha suspeita ao talento de Miyuki Fukuda da Silva. Há 40 anos na instituição, ela trabalhou com as primeiras enfermeiras alemãs da Cruz Vermelha que ajudaram a fundar o hospital.

Miyuki é o arquivo vivo da patologia. Pelas mãos dela, passaram lesões suspeitas e tumores claramente malignos com os mais diversos arranjos celulares que a natureza é capaz de criar. Grande parte das 70 mil amostras que compõem o Banco de Tumores do hospital foi congelada por ela e cadastrada pela auxiliar de anatomia Maristela Aparecida Barbosa.

Assim que recebe a pequena lesão preparada pelo colega, Miyuki congela o material a uma temperatura de -29 graus, em uma máquina chamada de criostato.

Depois de congelar e cortar a lesão de laringe em fatias finíssimas, Miyuki obtém a lâmina que será analisada pelos patologistas (Foto: Cristiane Segatto/ UOL VivaBem)

O corte perfeito

Rapidamente, a lesão vai ficando branquinha, do centro para a superfície. Miyuki a posiciona sob uma lâmina e corta fatias finíssimas. O movimento lembra o de um cortador de frios. "O corte tem que ser perfeito e sem dobras. Quanto mais fino, melhor. Se não for bom, os patologistas não conseguem dar o diagnóstico", diz ela.

A minuciosa Miyuki consegue extrair uma amostra perfeita, com apenas três micrômetros de espessura. Em alguns casos, consegue chegar a somente uma micra. Com um pincelzinho de pintura, paciência e delicadeza, termina de colocar a amostra sobre a lâmina e a mergulha em corantes diferentes. Um vai corar o núcleo das células. E, o outro, o citoplasma.

Terminado o processo, a lâmina está pronta para ser examinada sob o microscópio.

Oito olhos, um só diagnóstico

Sentados lado a lado, cada um com as suas lentes, os patologistas trocam impressões sobre o material extraído do paciente.

— Há uma área espessa e avermelhada que é o epitélio da laringe. É o epitélio escamoso. Abaixo dele, há o estroma. Isso é uma lesão polipóide. Um pólipo que está crescendo na laringe. Não tem nada de neoplasia — diz Nascimento, sem sinal de dúvida. Os colegas concordam.

Surpresa com a rapidez do diagnóstico (10 minutos desde a chegada do material à sala de patologia), pergunto:

— Tem certeza? Vocês não vão olhar de novo?

— É um pólipo por trauma. Quando é na corda vocal, chamamos de "nódulo do cantor". É uma lesão completamente benigna. Vamos dar a boa notícia a ele?

Lépido, Nascimento cruza o corredor e dá o diagnóstico ao residente que aguarda ao lado do paciente anestesiado. Em poucos minutos, ele deixaria a sala. Não era câncer.

E se fosse câncer?

Nascimento explica qual seria o aspecto da lesão extraída daquele paciente, caso ela fosse um câncer.

— Haveria ilhas desse epitélio invadindo e com atipia, com características malignas. Às vezes, não acertamos na primeira lâmina. Somos humanos, podemos errar.

Há casos em que a patologia leva um diagnóstico benigno para o cirurgião e ele discorda. Quando isso acontece, é preciso que ele retire mais tecido até que os patologistas consigam encontrar algum sinal de malignidade. Daí a importância da presença desses especialistas no centro cirúrgico.

Antonio conversa com a cirurgiã Lillian Kumagai, enquanto Ediel prepara a amostra de ovário para análise. Ao receber a confirmação de que não era um câncer, Lillian pôde encerrar a operação (Foto: Cristiane Segatto/UOL VivaBem)

A beleza da patologia

Os tumores ósseos são alguns dos mais complicados de diagnosticar. Como são raros, dificilmente um patologista tem a oportunidade de ver muitos deles fora de um grande centro de pesquisa e tratamento. A chance de ver de tudo e de aprender com quem sabe é o que atrai jovens de todo o Brasil e do Exterior para o programa de residência do A.C. Camargo.

É o caso do cearense Warley Abreu Nunes, 28 anos, formado em medicina pela Universidade Federal do Ceará e já incorporado à equipe de patologia. "Para quem é curioso, a patologia é a especialidade ideal. Descobrimos qual é a doença do paciente pela análise da lâmina e damos um diagnóstico que vai guiar todo o tratamento e o restante do seguimento dele. É como brincar de detetive".

Como um geógrafo que se emociona com os contornos de uma cordilheira, o professor Nascimento descreve a beleza do arranjo celular nos tumores malignos. Os agrupamentos sólidos e rendilhados, os cordões celulares… Cada câncer à sua maneira, com seu tipo peculiar de aparecimento.

Pouco depois, o pernambucano Ediel recebe mais uma peça para análise: um ovário com um grande cisto. Ao manipulá-la, ele percebe que as paredes são lisas. É um bom sinal. "O câncer, em geral, tem crescimentos nas paredes, grumos, vegetações", diz ele.

Assim que a análise é feita, a cirurgiã Lillian Kumagai entra na sala da patologia para saber como deve proceder dali em diante. "Achei que fosse benigno, mas precisava da confirmação do patologista. Agora é só encerrar a cirurgia", diz ela. Mais uma paciente voltaria tranquila para casa.

Uma manhã de boas notícias.

Sobre a autora

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem “O paciente de R$ 800 mil” e, em 2014, com o trabalho investigativo “O lado oculto das contas de hospital”, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Sobre o blog

Desde que o mundo é mundo, temos a necessidade de ouvir, contar e compartilhar histórias. A missão deste blog é garimpar pequenas pérolas, histórias miúdas (mas nunca banais) no rico universo da saúde. Grandes dilemas cotidianos, casos surpreendentes de cooperação, aceitação (ou superação) de limites, exemplos de solidariedade, pequenos oásis de sanidade em meio ao caos. Este espaço abrigará as boas notícias, que comovem ou inspiram, mas não só elas. Teremos olhos e ouvidos para capturar e analisar as coisas que não vão bem. Tentaremos, sempre, transformar confusão em clareza. Nada disso faz sentido sem você, leitor. Alguma sugestão de história ou abordagem? Envie pela caixa de comentários ou por email (segatto.jornalismo@gmail.com) e dê vida a esse blog.