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Cristiane Segatto

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Histórico

Desemprego na Paulista: a equipe que cuida da saúde de quem perdeu tudo

Cristiane Segatto

29/05/2019 04h00

Na Avenida Paulista, a equipe do Consultório na Rua: Sandra (à esq.), Rodrigo, Cinara e Renan (Foto: Cristiane Segatto/UOL VivaBem)

A Avenida Paulista não é mais a mesma, mas a mística resiste. Símbolo da pujança econômica de outros tempos, a artéria mais famosa de São Paulo continua a atrair gente em busca de oportunidades. Os empregos sumiram, mas sempre é possível fazer algum dinheiro em locais com intensa movimentação.

Essa é a lógica de quem se vira como pode ao longo do cartão-postal: os desempregados da capital e os récem-chegados de outras cidades. Os empreendedores por necessidade e os inadimplentes expulsos dos imóveis alugados. Os refugiados e os desajustados. Os vendedores de bugiganga e os palhaços sem graça.

A disputa por trocados na porta dos bancos e na vizinhança da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) indica uma atividade econômica em alta no Brasil de 13 milhões de desempregados. A Paulista é hoje o símbolo do país onde se mangueia.

"Manguear" ou "manguiar", segundo a voz das ruas, significa esmolar. Um exemplo típico de divisão de tarefas, de acordo com as regras do mercado de trabalho que mais cresce na região:

— Você fica aqui que eu vou "manguiar".

Quem fica tem a responsabilidade de guardar o lugar conquistado e os poucos pertences naquele pedaço de chão. Se o ponto é nobre, a concorrência é grande.

Pouca gente conhece tão bem essa linguagem e o impacto da crise econômica sobre as condições de vida quanto as equipes do Consultório na Rua, um serviço da Secretaria Municipal de Saúde que busca oferecer o básico a quem perdeu tudo.

Um dia aqui, outro ali

Na segunda semana de maio, uma das 19 equipes que atuam na capital saiu da Unidade Básica de Saúde (UBS) Nossa Senhora do Brasil, na Bela Vista, para percorrer a pé as ruas da região da Paulista. A cada novo dia de trabalho, os profissionais têm a esperança de conseguir estabelecer um vínculo com as pessoas que vivem na rua. O objetivo é convencê-las a se cadastrar na UBS para receber cuidados de saúde e assistência social.

É uma tarefa para quem não se abala diante de sucessivas recusas, nem espera resultados imediatos. "Um dia a pessoa aceita a nossa abordagem, em outro não. Um dia está aqui, em outro não está", diz o enfermeiro Rodrigo Bertelli. "Ainda assim, temos cerca de 600 pacientes cadastrados. São pessoas com quem conseguimos construir um vínculo e passaram a se cuidar melhor".

Na rua, os profissionais só realizam atendimentos de enfermagem ou consultas médicas em casos pontuais. Se a pessoa tem uma ferida e não aceita sair de onde está, o curativo é feito no local. O mesmo acontece no caso de exames de sangue de gestantes adolescentes, por exemplo. Se elas não aceitam ir à UBS, a coleta é feita na calçada.

A auxiliar de enfermagem Cinara mede a pressão arterial de um paciente que vive em uma praça na região da Avenida Paulista (Foto: Cristiane Segatto/ UOL VivaBem)

Um novo perfil

Quando atende um paciente pela primeira vez, Rodrigo procura conhecer seu histórico. Pergunta de onde ele é, por que veio parar na rua, há quanto tempo vive assim e o que aconteceu para que chegasse a esse ponto.

Com base nesse levantamento, o enfermeiro afirma que a população de rua mudou completamente na região. Há dois anos, o perfil predominante era o do usuário de álcool que teve problemas familiares e financeiros decorrentes do vício e veio parar na rua.

"Hoje, cerca de 60% das pessoas que atendo está na rua por causa do desemprego. Muitas vêm do interior, sem nenhuma perspectiva, e acham que em São Paulo vão conseguir alguma coisa. Não conseguem nada e ficam na rua", diz.

Para quem perdeu tudo, a Paulista é a oportunidade que resta. "Aqui ainda é um bom ponto de arrecadação de dinheiro. Em 15 minutos parado em uma padaria, vi uma pessoa conseguir R$ 32. Não ganho isso em uma hora de trabalho", afirma.

Os novos moradores de rua são pedreiros, pintores, gente com baixa ou nenhuma instrução que antes ganhava a vida na construção civil ou em serviços gerais.

"Ontem mesmo eu atendi três pacientes que estão na rua há apenas 15 dias", afirma a auxiliar de enfermagem Cinara Piovesani. "Acabou o seguro-desemprego e eles não conseguem mais pagar o aluguel".

Restou a calçada.

Enquanto a agente de saúde Sandra conversa com Fernando (de boné), Antonio abraça o agente social Renan: "Esse pessoal da UBS mora no nosso coração", diz ele. (Foto: Cristiane Segatto/UOL VivaBem)

Camisa social

Há oito meses, o baiano Antonio Costa dos Santos (o Tony Costa), 34 anos, mora na rua. Desde março, vive na Praça Rodrigues de Abreu, ao lado de uma das saídas da estação Paraíso do metrô. Diz que trabalhava como cozinheiro do China in Box. "Comecei do zero, como ajudante, sofri, mas avancei. Para ir para frente, tem que sonhar", afirma.

Tony encontrou sua turma em uma localização estratégica. Basta descer a escadaria do metrô para pegar a água com que cozinha ou toma banho. Prepara as refeições com um pacote de macarrão comprado com o dinheiro das esmolas ou restos de carne arrecadados em um açougue ou restaurante. "Aos domingos, tem churrasco", diz. "No mercado, sempre alguém dá alguma coisa; aqui na região da Paulista é mais fácil".

As panelas, lavadas e bem encaixadas dentro de uma bacia, são sinais de uma certa organização. A preocupação em manter os cabelos aparados demonstra que a noção de autocuidado não se perdeu totalmente. "Hoje estou sujo, mas tenho camisa e calça social na mochila para procurar emprego", diz.

Luto em família

Tony e os amigos são acompanhados de perto pela equipe do Consultório na Rua. "Tinha médico quando eu trabalhava. Hoje, o melhor médico é esse pessoal da UBS. Eles moram no nosso coração", diz.

Na praça, não faltam problemas de saúde a ser administrados. Um reclama da perna e precisa de uma consulta com o ortopedista, outro é hipertenso, um terceiro vive com uma bolsa de colostomia. Todos exageram na cachaça de R$ 2.

Dividem o abrigo de papelão, lona e plástico e sofrem quando alguém se perde do grupo. Em setembro, um dos homens se atirou do Santa Generosa, um viaduto com alto índice de suicídio. "Eles ficaram péssimos. Tivemos que ajudá-los a lidar com o luto, como se fosse uma questão de família", diz o agente social Renan Souza. "Se a sociedade exclui, a rua acolhe e a praça se torna a família."

A disputa pelos bancos

E quando chove ou faz muito frio?

"Durmo no Bradesco, mas é preciso chegar cedo para conseguir lugar", diz o pernambucano Fernando do Nascimento, 52 anos. "Para quem quase morreu no Rio São Francisco três vezes, isso aqui é mais fácil. Aqui eu como e bebo". Fernando diz que foi vigilante e motorista. E que gostaria de arrumar um trabalho e sair da rua.

"Todos aqui trabalhavam. Tem pais e mães; alguns têm filhos e netos", diz a agente de saúde Sandra Marli Leite. A cada vez em que consegue se aproximar de uma pessoa, descobrir quem ela é e convencê-la a pensar em saúde, Sandra se sente recompensada.

"Quando conseguimos convencer alguém a fazer um exame, descobrimos uma tuberculose e vemos que a pessoa está se tratando, sinto que o meu trabalho valeu a pena", diz.

Enquanto caminha devagar pela Avenida Paulista, Sandra observa detalhes. Reconhece pessoas abordadas ou cadastradas anteriormente e procura vestígios de recém-chegados às ruas. É ela quem alerta a equipe sobre o grupo que, após as 10 horas da manhã, ainda dorme, enfileirado, na entrada do Banco do Brasil.

A agente de saúde Sandra e alguns dos pacientes que vivem em uma praça ao lado da estação Paraíso, do metrô. "Sinto que o meu trabalho vale a pena" (Foto: Cristiane Segatto/UOL VivaBem)

O impasse de todos os dias

Alcoolismo, transtornos mentais, tuberculose, HIV, sífilis e gravidez na adolescência são alguns dos problemas de saúde mais comuns encontrados pela equipe na região da Paulista. "As pessoas acham que quem vive na rua usa crack. Isso é na cracolândia. Aqui o álcool é um problema muito maior", diz o enfermeiro Rodrigo.

Na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, a equipe tenta conversar com um nigeriano que tem as roupas esfarrapadas e está sentado na porta de um restaurante. Ele não aceita ajuda, e se recusa a ir a um Centro de Acolhida. Enquanto Sandra, Cinara e Renan conversam com ele, o dono do restaurante exige que Rodrigo tire o homem da porta de seu estabelecimento.

É o impasse de todos os dias.

"Entendo o lado do comerciante, mas nós não temos o dever e nem a obrigação de fazer uma higiene nas calçadas. A nossa função é conversar e tentar ajudar, mas as pessoas só saem se quiserem", diz o Rodrigo.

A cada dia de trabalho no Consultório na Rua, ele percebe que as necessidades dos pacientes são muito anteriores às demandas de saúde. "Eles precisam de um trabalho, de uma habitação, de tudo o que não foi feito e que resultou no que vemos hoje".

Com sua população flutuante — que chega, faz uns trocados, vai procurar outro canto ou se afunda de vez — a Paulista é a síntese do estado de espírito geral em uma economia a caminho da depressão.

Sobre a autora

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem “O paciente de R$ 800 mil” e, em 2014, com o trabalho investigativo “O lado oculto das contas de hospital”, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Sobre o blog

Desde que o mundo é mundo, temos a necessidade de ouvir, contar e compartilhar histórias. A missão deste blog é garimpar pequenas pérolas, histórias miúdas (mas nunca banais) no rico universo da saúde. Grandes dilemas cotidianos, casos surpreendentes de cooperação, aceitação (ou superação) de limites, exemplos de solidariedade, pequenos oásis de sanidade em meio ao caos. Este espaço abrigará as boas notícias, que comovem ou inspiram, mas não só elas. Teremos olhos e ouvidos para capturar e analisar as coisas que não vão bem. Tentaremos, sempre, transformar confusão em clareza. Nada disso faz sentido sem você, leitor. Alguma sugestão de história ou abordagem? Envie pela caixa de comentários ou por email (segatto.jornalismo@gmail.com) e dê vida a esse blog.