Topo
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto

Histórico

"Sob Pressão" na real: "Com o SAMU, eu era a única presença do Estado"

Cristiane Segatto

01/05/2019 04h00

O médico Marcio Maranhão (à direita), autor do livro "Sob Pressão", orienta o ator Julio Andrade durante a gravação de uma cena de atendimento prestado pelo personagem Dr. Evandro (Foto: Mauricio Fidalgo/ Rede Globo)

A terceira temporada da série "Sob Pressão" estreia nesta semana na Globo. Na ficção, os médicos Evandro (Julio Andrade) e Carolina (Marjorie Estiano) enfrentarão as consequências de fatos que dominaram o noticiário recentemente, como a greve dos caminhoneiros, o desabamento de prédios e o poder das milícias no Rio de Janeiro. Autor do livro que inspirou a série e o filme de mesmo nome, o médico Marcio Maranhão acredita que as histórias do universo da saúde têm poder. "Por meio delas, conseguimos trazer as pessoas para dentro desse ecossistema tão complexo, cheio de discussões e de injustiças", diz ele. "São histórias que emocionam e ampliam o entendimento sobre a importância do Sistema Único de Saúde (SUS)".

Como consultor da série, Maranhão participou da criação dos roteiros e ajudou os atores durante a gravação das cenas. Atualmente, ele é chefe do serviço de cirurgia torácica do Hospital de Força Aérea do Galeão e coordenador do centro cirúrgico do Hospital Barra D'Or. Muito do que sabe hoje, Maranhão aprendeu nos plantões do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e nos atendimentos em um hospital público da Baixada Fluminense. Em entrevista ao blog, ele conta como essa experiência o transformou como médico e cidadão.

UOL VivaBem: Você se sente bem representado pelo Dr. Evandro?

Marcio Maranhão: Eu me identifico mais com a Dra. Carolina. Os dois personagens são muito ricos e têm características comuns entre eles, como a entrega ao paciente e à profissão. Adoro o Dr. Evandro, mas ele é muito mais inconsequente do que eu sou. Ele extrapola os limites e, muitas vezes, se torna perigoso para o paciente. O que me incomoda nele é a imprudência. A empatia da Dra. Carolina me aproxima mais dela. É o que a gente tenta fazer diariamente.

UOL VivaBem: No início da carreira, você virava a noite no plantão do SAMU e, no dia seguinte, ia operar no Hospital do Galeão. Isso não colocava os pacientes em risco?

Marcio Maranhão: Sim, eu fazia essa loucura. Na juventude, o médico ainda não conhece os próprios limites e as implicações disso em seu desempenho do profissional e na segurança do paciente. Isso que eu fazia é uma prática muito comum na medicina. Todo mundo dá plantão e, depois, vai trabalhar no dia seguinte. A gente não imagina um piloto de Boeing fazendo isso. Na saúde, é comum. O jovem acha que acumular essas vivências é importante para a sua formação. É inconsequência.

UOL VivaBem: O que você aprendeu com a experiência do SAMU?

Marcio Maranhão: Eu vivi muitas histórias. Na emergência, a gente sempre recebe a consequência da violência urbana, da guerra do trânsito e do contexto social. Trabalhava no Hospital de Saracuruna, um bairro do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ao redor, havia uma população de cerca de 500 mil habitantes. Quem se propõe a dar plantão no SAMU entra em vazios assistenciais impressionantes.

Com um estetoscópio no pescoço e uma mochila nas costas

UOL VivaBem: Como você se sentia?

Marcio Maranhão: Os profissionais de saúde se sentem uma peça muito valiosa quando entram em localidades onde não há nenhuma manifestação do poder público. Onde existem outras leis, outras regras e outros valores. Eu entrava ali, com um estetoscópio no pescoço e uma mochila nas costas, para tentar diminuir o sofrimento ou salvar alguém.

UOL VivaBem: Era como se você encarnasse o próprio Estado?

Marcio Maranhão: Exatamente. Isso me chocava. Eu refletia: "Como eu posso ser a única presença do Estado nesse lugar?". Ao mesmo tempo, isso me dava uma responsabilidade e até um orgulho. Aí eu pensava: "ainda bem que estou aqui". Eu sabia que, se nós do SAMU não estivéssemos ali, o paciente iria morrer ou ficar jogado.

UOL VivaBem: Como era lidar com a violência naqueles locais?

Mario Maranhão: Na época, eu havia lido o livro Cidade Partida, do jornalista Zuenir Ventura. Foi um livro que bateu muito forte em mim. No SAMU, vivi uma cidade que eu desconhecia. Tive o privilégio de entrar em locais onde ninguém entra.

UOL VivaBem: E como cidadão? O que você aprendeu com essa experiência?

Mario Maranhão: Nesses lugares, encontramos pessoas que não têm nenhuma noção de cidadania. Gente que não tem ideia do que são direitos e deveres. A Baixada Fluminense não tem só pobreza e violência. Ela tem miséria. Onde há miséria não há educação e nenhuma atenção primária à saúde. Não há um agente comunitário, um posto de saúde. Nada. As pessoas ali estão totalmente às margens da sociedade. O valor da vida é outro. Isso nos trazia um estranhamento muito grande. E também medo e sensação de impotência.

UOL VivaBem: Um exemplo?

Mario Maranhão: Uma vez fui atender uma senhora obesa, hipertensa e diabética que morava em uma laje de difícil acesso. A escada externa era estreita e sem corrimão. Para descer com ela na maca, eu colocaria a minha enfermeira e o meu motorista em risco. Tive que fazer um atendimento lá em cima, para tentar melhorar um pouco a respiração dela e ampará-la para que ela descesse a escada caminhando devagarzinho. Ela foi ficando roxa, a dificuldade era enorme. Por causa da insuficiência respiratória, ela teve uma parada cardíaca na ambulância.

UOL VivaBem: E aí? O que aconteceu depois?

Mario Maranhão: Reverti a parada cardíaca e apostamos tudo para salvar aquela senhora. Peguei uma veia profunda, entubei, adrenalina, massagem, tudo o que era possível fazer. Fomos correndo para o hospital mais próximo, na Ilha do Governador. Era um hospital lotado e com poucos recursos, mas era o que tinha. Achei que ali ela, pelo menos, teria um respirador e poderia ser vigiada por outro colega. Voltamos à noite, para levar outro paciente, e procurei por ela. Aquela senhora que havia sido a minha paciente, por quem eu fiz tudo o que podia, estava lá, do mesmo jeito que a deixei. Haviam se passado muitas horas e ela não tinha conseguido receber qualquer avaliação médica. Não sei o que aconteceu com ela, mas imagino o desfecho. Demos o nosso máximo e, ao final de tudo, a minha sensação foi de apenas ter despejado alguém.

O médico Maranhão (à esquerda) com o ator Bruno Garcia (Dr. Décio), durante a gravação de um episódio de "Sob Pressão". Foto: Paulo Belote/ Rede Globo

Da frustração e do inconformismo, nasceu um livro

UOL VivaBem: Por essas e outras histórias, você decidiu escrever o livro?

Mario Maranhão: Era tanta frustração e inconformismo com a minha atuação, que resolvi escrever para colocar aquilo para fora, para me tratar um pouco. No começo da carreira, a gente não tem apoio psicológico ou uma formação filosófica para enfrentar essa realidade. Os médicos vão criando uma carcaça e, ao mesmo tempo, relatando as nossas vivências aos nossos colegas para tentar dividir um pouco tudo isso.

UOL VivaBem: O que acontece quando esses relatos saem do círculo dos profissionais da saúde?

Marcio Maranhão: Fui reparando que os meus amigos, as pessoas fora do círculo da saúde ficavam muito impressionadas com as histórias que eu contava. Elas se interessavam e se emocionavam. Daí veio o livro, o filme e, depois, a série. A equipe foi muito feliz na missão de traduzir para a população temas complexos de uma forma sensível. A série é informação e entretenimento. Conseguimos mostrar, de um jeito palpável, como a corrupção mata na saúde. Falamos de temas muito relevantes e ajudamos a explicar um sistema de saúde que é difícil de entender até para quem vive dentro dele. Além disso, acho que a série também resgata a esperança. É muito bom saber que há pessoas tão comprometidas, como o Dr. Evandro e a Dra. Carolina, trabalhando na saúde pública.

O poder das histórias que emocionam

UOL VivaBem: A série ajudou as pessoas de todas as classes sociais a entender a importância do SUS?

Marcio Maranhão: A série fala de histórias que emocionam. E, por isso, agrada tanto a parcela de 25% da população que tem plano de saúde quanto os 75% que dependem do SUS. Quando comecei a trabalhar com os roteiristas, com os atores, com a equipe percebi que eles passaram a se sensibilizar mais com o SUS. Até então havia o entendimento velado ou explícito de que ele era para o pessoal de baixa renda. Essa é uma percepção muito equivocada do que seja o SUS. Ele não é só um hospital. Ele garante a existência de programas importantes como vacinação, transplantes etc. E também pesquisas, formação de profissionais de saúde e tantas outras coisas.

UOL VivaBem: Todos nós usamos o SUS, de alguma forma, todos os dias. Quem vai a um restaurante chique, por exemplo, está usando o SUS porque a vigilância das condições sanitárias é feita pela Anvisa, certo?

Marcio Maranhão: Exatamente. Acho que a série contribui para a compreensão de que ele é um pilar fundamental, um braço estruturante da sociedade. Tudo o que está errado na sociedade acaba repercutindo na saúde. Vai parar nas mãos do Dr. Evandro e da Dra. Carolina. Eles recebem a consequência da falência do planejamento e de tantos programas ineficientes.

O poder das milícias 

VivaBem: Na terceira temporada, aparecem temas do noticiário como a greve dos caminhoneiros e as milícias. Na vida real, como os profissionais de saúde lidam com essas organizações criminosas?

Marcio Maranhão: Na minha experiência na Baixada Fluminense, havia um poder velado dentro do hospital. Havia ordens para atender pacientes recomendados ou dar a eles um atendimento diferenciado, internar no CTI etc. Era um hospital que atendia demandas políticas do poder da região. Um curral eleitoral mesmo. É uma região violenta e com muita disputa de poder. A gente sentia medo e uma pressão constante, mas não havia um rosto, uma personificação. Era algo diferente do traficante. Era muito fácil identificar o traficante porque ele entrava no hospital de máscara, rádio e um fuzil atravessado. O poder da milícia existe, você sente a presença dele. Ele regula o seu comportamento. Faz você viver sob certa coação. Fiquei em Saracuruna entre 2001 e 2009 e o que via era diferente do traficante. Era civil, armado, fazendo essa pressão dentro do hospital. Levantar a voz contra isso era perigoso.

UOL VivaBem: Como era trabalhar na presença dos traficantes?

Marcio Maranhão: Quando não havia vaga no hospital penitenciário, os traficantes ficavam sob custódia na nossa enfermaria. Ficavam algemados à maca, sob vigilância de um policial militar. Às vezes, os traficantes invadiam o hospital para resgatá-los. Uma vez eles entraram por uma escada e eu desci pela outra. Até o policial se escondia porque ele não tinha poder de fogo contra uma invasão de traficantes no hospital.

VivaBem: E no SAMU? A relação com eles era diferente?

Marcio Maranhão: No SAMU, eu entrava no QG dos traficantes na Ilha do Governador, por exemplo. Entrei várias vezes no Morro do Dendê. As paredes cravadas de bala, mas com uma vista deslumbrante da Baía de Guanabara. Os traficantes conviviam com todos da comunidade, o bar funcionava, a senhora lavava a roupa, a criança jogava bola na rua. E os traficantes ali, escutando música em um boteco. Era um equilíbrio muito frágil.

UOL VivaBem: Vocês, do SAMU, eram bem-vindos?

Marcio Maranhão: Sim, só entravamos com autorização deles. Os traficantes sabiam que estava chegando uma ambulância e qual paciente seria atendido. O limite é muito marcado. No Morro do Dendê, depois da terceira curva já tinha a barreira deles. A gente se identificava e eles avisavam, por rádio, que estávamos subindo.

"Pô, Doc, não dá pra fazer uma chapa dentro da ambulância?"

UOL VivaBem: E se eles não quisessem que determinada pessoa recebesse atendimento?

Marcio Maranhão: Isso nunca aconteceu. Eles sempre checavam a fonte do chamado. Permitiam a nossa entrada e se aproximavam da gente. Eles me chamavam de Doc. Teve um dia em que um disse: "Pô, Doc, não dá pra gente fazer uma chapa aí dentro da ambulância? Tô meio gripado". Era assim. Tive que explicar que ambulância não fazia raios-X para um cara mascarado, com rádio e um fuzil.

UOL VivaBem: E você não tinha medo?

Marcio Maranhão: Claro que eu tinha. Eu queria sair logo dali. A minha proteção era o estetoscópio que eu botava no pescoço, o macacão do SAMU que me identificava como médico e a minha atuação junto ao doente. Achava que nada ia nos acontecer porque estávamos tratando de uma pessoa da comunidade que os traficantes conheciam.

UOL VivaBem: Qual é a sua avaliação sobre o SUS no período entre 2014, quando lançou o livro, e hoje? Algo mudou?

Marcio Maranhão: A minha leitura diz respeito à atenção primária à saúde. Em 2014, havia trabalhos muito exitosos em alguns municípios. De lá para cá, perdemos muita coisa. Programas fundamentais e que estavam dando certo foram enxugados. As populações ficaram ainda mais desassistidas. Com o recuo dos programas de atenção primária em vários municípios do Rio de Janeiro, sem ações de promoção de saúde e prevenção de doenças, não há solução. O que eu via no SAMU era, justamente, as consequências da inexistência de um programa de saúde da família. Eu ia atender a senhora descompensada que já estava no final de linha. Eu ia atender problemas que teriam sido evitados se houvesse um acesso mínimo à educação e à atenção primária à saúde. O maior desafio do SUS continua a ser o desafio político de ter um esforço de gestão para que se possa organizar, hierarquizar e integrar vários serviços. Se a gente ajeitar tudo hoje (com financiamento melhor, gestão com menos desperdícios e uma organização estruturada do SUS), os resultados virão a médio e longo prazo.

Sobre a autora

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem “O paciente de R$ 800 mil” e, em 2014, com o trabalho investigativo “O lado oculto das contas de hospital”, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Sobre o blog

Desde que o mundo é mundo, temos a necessidade de ouvir, contar e compartilhar histórias. A missão deste blog é garimpar pequenas pérolas, histórias miúdas (mas nunca banais) no rico universo da saúde. Grandes dilemas cotidianos, casos surpreendentes de cooperação, aceitação (ou superação) de limites, exemplos de solidariedade, pequenos oásis de sanidade em meio ao caos. Este espaço abrigará as boas notícias, que comovem ou inspiram, mas não só elas. Teremos olhos e ouvidos para capturar e analisar as coisas que não vão bem. Tentaremos, sempre, transformar confusão em clareza. Nada disso faz sentido sem você, leitor. Alguma sugestão de história ou abordagem? Envie pela caixa de comentários ou por email (segatto.jornalismo@gmail.com) e dê vida a esse blog.